Startup desenvolve plataforma para facilitar a compra de produtos laboratoriais

A burocracia é um dos gargalos para o desenvolvimento científico e tecnológico nacional. O processo de aquisição de produtos e insumos para laboratórios de pesquisa no País esbarra, muitas vezes, em dificuldades geradas pelo excesso de exigências jurídicas e pela lentidão nos processos para importação de materiais e equipamentos. “De acordo com pesquisa realizada em 2006 pelo engenheiro Fernando Peregrino, da Coppetec/UFRJ [Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro], o pesquisador brasileiro gasta cerca de 35% do seu tempo resolvendo questões burocráticas, como preencher formulários, pesquisar preços, pedir notas fiscais e fazer prestação de contas, em vez de fazer pesquisa. Uma simples compra de produto importado para a pesquisa leva, em média, de três a quatro meses”, contextualizou a biomédica Andreia da Silva de Oliveira, co-fundadora da startup iBench (www.ibench.com.br), empresa responsável pelo lançamento do iBench Market, o primeiro marketplace brasileiro dedicado a laboratórios.

Esse cotidiano foi vivido de perto por Andreia durante os anos em que se dedicou apenas à pesquisa sobre a biologia do câncer, quando cursou mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de Biomedicina, no Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBqM/UFRJ). Ela foi contemplada pela FAPERJ, por meio do Programa de Apoio ao Pós-Doutorado (PAPD), em 2014. “Quando um pesquisador quer comprar produtos para seu laboratório, perde muito tempo procurando informação, porque elas estão fragmentadas. Ou ele passa horas na Internet ou espera um fornecedor que bate de porta em porta nos laboratórios, como era no século 20. Pensei então como seria bom se existisse no Brasil uma ferramenta online para o pesquisador poder comparar produtos e preços, de várias empresas, com todas as especificações, e como encurtaria todo esse tempo de trabalho. Pensei bastante nisso quando realizei doutorado-sanduíche nos Estados Unidos, na Escola de Medicina da Universidade de Saint Louis, no estado de Missouri, e vi como estamos engessados nessa questão no Brasil”, contou.

Para colocar essa ideia em prática, ela juntou esforços com a também biomédica Débora Moretti, atualmente doutoranda em Gestão da Inovação pela Escola de Química da UFRJ. “Débora era da Biomedicina e nos encontramos no Fundão, quando trabalhávamos na equipe do professor Renato Rozental, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, que desenvolvia dispositivos para a hipotermia cerebral. Começamos a discutir sobre soluções para desburocratizar e agilizar o processo de compras laboratoriais no País e decidimos criar a iBench”, resumiu Andreia. “Na época, em 2017, o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] estava lançando a quinta edição do edital Startup Brasil, voltado à criação de startups na área de Ciência e Tecnologia, e dos 497 projetos inscritos, ficamos entre os 50 selecionados. Dessas 50 startups, só sete tinham mulheres como fundadoras”, acrescentou. Débora também foi contemplada pela FAPERJ anteriormente, pelo edital Apoio à Inserção de Mestres e Doutores em Empresas Sediadas no Estado do Rio de Janeiro – 2013, além de ter sido bolsista de Treinamento e Capacitação Técnica (TCT) e de Iniciação Científica (IC) da Fundação.

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O grupo de trabalho da iBench: proposta da startup é oferecer um
marketplace para atender as demandas dos laboratórios brasileiros

 

Depois do resultado positivo no Startup Brasil, elas foram acolhidas pela aceleradora de startups OBR Global. “Com o suporte e consultorias em empreendedorismo, saímos da categoria MEI [Microempreendedor Individual] e hoje somos uma empresa LTDA. Nessa época, funcionávamos no prédio do programa Startup Rio (http://www.startuprio.rj.gov.br) – uma iniciativa da FAPERJ e da Secretaria estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) voltada ao desenvolvimento de empresas nascentes de base tecnológica fluminenses –, situado na Rua da Catete, 244, onde ficamos de maio de 2018 a maio de 2019. Hoje, a sede da iBench funciona na WeWork, na Av. Almirante Barroso. O espaço é um coworking alugado pelo BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento], no âmbito do programa BNDES Garagem, outra iniciativa de apoio às startups brasileiras que visa ao desenvolvimento de um centro de inovação no estado do Rio de Janeiro”, contou Andreia.

Ela destaca que a iBench é uma empresa criada por cientistas com o objetivo de desenvolver soluções com foco no mundo da ciência, de modo a torná-lo mais eficiente. “Nossa primeira solução, o iBenchMarket, consiste em um marketplace dedicado a produtos laboratoriais, com três finalidades: agilidade na procura de produtos e fornecedores; comparação de preços e características dos produtos; avaliação de produtos e, futuramente, de fornecedores, dando espaço para a voz dos pesquisadores. Por um lado, cientistas das mais diversas áreas poderão conjugar os produtos de diversos fornecedores em apenas uma compra, facilitando a prestação de contas. Por outro, os fornecedores terão a oportunidade de oferecer seus produtos para uma fatia maior do mercado com um mínimo esforço e investimento. A nossa empresa nasce com alma brasileira, mas já global, buscando promover uma ciência mais eficiente, principalmente nos países emergentes”, concluiu.

Dada a sua maturidade em termos de gestão, para uma jovem empresa, a iBench chegou à semifinal do Prêmio de Inovação da Indústria do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em abril de 2019. Neste mês de agosto de 2019, ainda, as sócias da iBench apresentaram o trabalho da startup no MyInova Summit, um dos principais eventos do setor de inovação, promovido em Curitiba pela Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro) e Assespro-PR, para debater os desafios tecnológicos das empresas. No evento, Andreia recebeu ainda uma homenagem, nas atividades da palestra “Mulheres na Tecnologia”.

 

Texto: Débora Motta

Foto: Pixabay

Fonte: FAPERJ

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