Tratamento contra malária terá novo medicamento no Brasil

“Pela primeira vez, em quase 70 anos, o Brasil alcança o registro, pela Anvisa, de novo medicamento para o tratamento contra a malária vivax”, foi assim que o pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Rondônia e do Centro de Pesquisa em Medicina Tropical (Cepem), Dhélio Batista Pereira, noticiou a mais recente conquista no combate a uma doença que atinge cerca de 7,5 milhões de pessoas no mundo todo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Feito pela empresa farmacêutica britânica GlaxoSmithKline, o registro da tafenoquina foi aceito (29/10) pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, de acordo com o pesquisador, estudos clínicos coordenados pela Fiocruz comprovam que a nova substância encurta o tempo de tratamento, o que contribui para uma melhor adesão ao medicamento. O próximo passo pela Fundação será a aplicação de testes de viabilidade, em regiões endêmicas, para a completa inclusão da nova droga ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Ao contrário do que ocorre com o uso de primaquina, medicamento utilizado no Brasil há mais de 60 anos e administrado no paciente diariamente por um período de até 14 dias, a “tafenoquina poderá ser aplicada em uma única dose, pois sua ação alcança mais de 20 dias, apresentando chances de cura radical. O novo medicamento atua diretamente na forma hepática da malária vivax (os hipnozoítos), evitando as chamadas recaídas, que é o retorno da doença por infecção na corrente sanguínea”, esclarece o especialista em medicina tropical.

Com a aprovação pela Anvisa, o Brasil se tornou o primeiro país com malária endêmica a regular a tafenoquina como medicação a ser disponibilizada à população em geral pelo Ministério da Saúde, por meio do SUS. O uso da tafenoquina foi liberado pela primeira vez em julho de 2018, pela agência regulatória norte-americana Food and Drug Administration, e em setembro do mesmo ano pela agência australiana Therapeutic Goods Administration. Essas aprovações regulatórias foram baseadas em dados de eficácia e segurança de um programa de desenvolvimento clínico global abrangente para a cura radical de malária provocada pelo Plasmodium vívax, realizado em nove países com casos endêmicos da doença, incluindo o Brasil.

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Os estudos com tafenoquina iniciaram com o exército norte-americano há pelo menos 30 anos. No entanto, nos últimos dez anos, uma parceria entre a organização não-governamental Medicines for Malaria Venture (MMV) e a farmacêutica britânica GlaxoSmithKline, com apoio da Fundação Bill and Melinda Gates, possibilitou a fase clínica dos estudos realizados no Peru, Índia, Vietnã, Etiópia e no Brasil, nas cidades de Porto Velho/RO e Manaus/AM.

Estudos de viabilidade 

O próximo passo será a realização de um estudo, pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Fiocruz e outras instituições, para avaliar a implementação do uso do novo medicamento em pacientes com malária no Brasil. Dhélio Pereira explica que “o principal objetivo é avaliar a inclusão do teste da atividade da enzima G6PD no organismo e a escolha do tratamento, uma vez que cerca de 5% da população no país tem deficiência da atividade desta enzima em algum grau.

“Se o teste apontar para a normalidade, o paciente poderá tomar tafenoquina; se a atividade da enzima for moderada ou leve, poderá ser medicado com primaquina; mas se a deficiência da enzima for em grau elevado, o paciente poderá ser medicado com primaquina, de forma monitorada e semanal”, pontua o pesquisador, afirmando que o déficit desta enzima pode provocar efeitos colaterais graves ao paciente, se não ela não for identificada. A ideia é oferecer um atendimento diferenciado após o diagnóstico de malária, e orientar profissionais que atuam na rede pública de saúde quanto ao novo modelo de tratamento. O levantamento final poderá orientar estados e municípios em ações eficazes para o diagnóstico e tratamento da malária.

 

Texto: José Gadelha da Silva Júnior (Fiocruz Rondônia)

Foto: Pixabay

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias

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