Estudo comprova aumento da vazão em córrego por meio de programa de pagamento por serviços ambientais

Uma pesquisa desenvolvida por acadêmicos e professores da UFMS mostrou que as práticas de conservação do solo e água realizadas na bacia do córrego Guariroba em Campo Grande (MS) aumentaram sua quantidade de água e lhe deram maior resiliência para suportar eventos extremos de seca. O estudo faz parte de um projeto mais amplo intitulado “SegHAE – Segurança Hídrica-Alimentar-Energética no Cerrado Brasileiro”, que recebe fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio da chamada MCTI/CNPq Nº 19/2017 – NEXUS Cerrado.

De acordo com o coordenador, professor Paulo Tarso Sanches de Oliveira, o grupo de pesquisa Hidrologia e Segurança Hídrica investiga os impactos das mudanças climáticas e de uso e cobertura do solo nos fluxos de água e erosão do solo no Cerrado, e como essas mudanças podem afetar a segurança hídrica, alimentar e energética. “Assim, este estudo vem sendo desenvolvido em diferentes escalas espaciais que variam de bacias hidrográficas até áreas continentais”, cita.

O monitoramento da bacia do córrego Guariroba, com resultados publicados na Science of the Total Environment, vem sendo feito desde 2011 por meio do laboratório de Hidrologia, Erosão e Sedimentos (HEroS) da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia (Faeng/UFMS). “Na bacia do Guariroba monitoramos continuamente precipitação, vazão, cota linimétrica e descarga de sedimentos. Separamos os tipos de escoamento nos dados de vazão, como rápido (escoamento superficial) e  lento (escoamento de base). Calculamos também algumas assinaturas hidrológicas para melhor entender os processos hidrológicos e a contribuição dos fluxos rápido e lento”, explica o professor.

Os pesquisadores analisaram o comportamento temporal dos dados de vazão e precipitação para identificar tendências e fizeram também o detalhamento de todas as práticas de conservação do solo e água que estão sendo feitas na bacia, subsidiadas pelo programa de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA). “Nesta etapa tivemos apoio da prefeitura municipal de Campo Grande por meio dos servidores Marcos Andrey e Ivan Pedro Martins”, lembra Paulo Tarso Sanches Oliveira.

Ainda de acordo com o professor, serviços ambientais são os benefícios que o meio ambiente natural proporciona aos seres humanos e Programas de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSAs) são incentivos financeiros aos responsáveis pela preservação e conservação ambiental. “A Agência Nacional de Águas (ANA) lançou o programa chamado ‘Produtor de Águas’, no qual os municípios inscrevem seus projetos para arrecadar recursos para prover os pagamentos. A prefeitura de Campo Grande tem o projeto chamado ‘Manancial Vivo’, vinculado ao programa. Os proprietários da bacia do Córrego Guariroba se inscrevem no projeto municipal para receber esses pagamentos, de acordo com as práticas conservacionistas adotadas”, elucida.

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Resultados

Na bacia do córrego Guariroba, a comparação entre as variações nos fluxos de água em função das práticas de conservação do solo e água permitiu que os pesquisadores comprovassem que as práticas ambientais incentivadas pelo programa “Manancial Vivo” proporcionaram aumento da vazão de base, que sustenta a vazão total durante todo ano. “Verificamos que mesmo com uma redução nas chuvas no período estudado, a vazão do rio aumentou em função dessas práticas conservacionistas desenvolvidas na bacia. Houve uma redução de aproximadamente 1 milímetro por mês na quantidade de chuva no período de estudo. Apesar disso, a vazão de base do rio aumentou cerca de 0,018 metro cúbico por segundo”, aponta o coordenador.

Ainda, segundo o professor, a bacia do Guariroba é responsável por cerca de 34% do abastecimento público do município, por isso foi estabelecida como uma Área de Proteção Ambiental (APA) de Campo Grande, devido a sua importância social, ambiental e econômica. “Deste modo, os programas de Pagamento por Serviços Ambientais são fundamentais para balancear esses interesses. Com o incentivo financeiro os produtores rurais são encorajados a conservar o solo, vegetação e água e, assim, desenvolver sua atividade produtiva de forma mais eficiente. É uma cadeia cíclica onde os ecossistemas são conservados, melhorando os serviços ambientais, logo, aumentando a produtividade”, afirma.

Participaram da consolidação dos dados publicados na Science of the Total Environment, da Pós-graduação em Tecnologias Ambientais (PGTA), os mestrandos: Jullian Souza Sone, Gabriela Chiquito Gesualdo e Pedro Zamboni; os doutorandos: Tiago Mattos, Nelson Vieira e Glauber Carvalho; e os professores da Faeng: Dulce B. B. Rodrigues e Teodorico Alves Sobrinho, além do professor Paulo Tarso.

O projeto como um todo conta ainda com um grupo maior de pesquisadores, que envolve também alunos dos cursos de Engenharia Civil e Engenharia Ambiental da UFMS, pesquisadores da UFMT, UEMS e EESC-USP no Brasil; e pesquisadores da University of Arizona, USDA-ARS, University of Bristol e Max-Planck-Institut für Meteorologie.

“O intuito é manter o monitoramento hidrometeorológico na bacia do Guariroba e também em outras bacias hidrográficas que têm sido estudadas, pois, na área de hidrologia e recursos hídricos quanto maior a série temporal de dados observados, maiores são as possibilidades de desenvolver novos estudos e conclusões”, finaliza o professor.

 

 

 

Texto: Ariane Comineti

Fotos: André Almagro

Fonte: UFMS

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