Estudo revela rotina de trabalho desgastante das operadoras de caixa

O trabalho possui uma grande centralidade em nossas vidas. Ele é responsável por agregar conhecimento, gerar nossos bens materiais, nossa subsistência e nossas relações sociais e identitárias. Dessa forma, o trabalho é fundamental para a manutenção da vida humana em sociedade. Mas, mesmo com a sua importância, uma ocupação profissional pode trazer tanto vivências felizes quanto vivências de sofrimento. Estas últimas vivências podem acarretar sérios problemas (físicos e/ou psicológicos) para os trabalhadores.

De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Previdência do Ministério da Economia, em 2017, a dorsalgia (nome técnico para a dor nas costas) foi a maior responsável por afastamentos dos postos de trabalho. Os transtornos mentais e comportamentais também foram responsáveis por afastamentos, de forma que episódios depressivos geraram 43,3 mil auxílios-doença e enfermidades classificadas como transtornos ansiosos corresponderam a 28,9 mil casos.

Com o foco em operadoras de caixa de supermercado e baseada na Teoria da Psicodinâmica do Trabalho, a psicóloga Ana Carolina Secco de Andrade Mélou desenvolveu a dissertação “Eu acho graça pra não chorar”: Uma análise da Psicodinâmica do Trabalho de operadoras de caixa de supermercado. A pesquisa, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP/IFCH) e orientada pelo professor Paulo de Tarso Ribeiro de Oliveira, buscou analisar a organização do trabalho e investigar a dinâmica prazer-sofrimento psíquico dessas trabalhadoras.

“De forma geral, a temática da pesquisa é a saúde mental no trabalho, então busquei compreender como funciona o trabalho de operadora de caixa de supermercado e quais as dificuldades contidas nesse cotidiano e, a partir daí, entender suas vivências de prazer e de sofrimento e como elas enfrentam as dificuldades”, explicou Ana Carolina Secco.

Conversa com trabalhadoras de diferentes empresas

Para a pesquisa, foram entrevistadas 15 operadoras de caixa, que pertenciam a quatro diferentes empresas de supermercado. “Eu pude ter acesso às entrevistadas por meio do Sindicato dos Trabalhadores em Supermercados do Estado do Pará (SINTCVAPA), que permitiu que eu ficasse em sua recepção. À medida que as trabalhadoras compareciam ao local, eu fazia o convite para elas participarem da pesquisa”, explica Ana Carolina Secco.

A pesquisadora adotou, como critério para a seleção das entrevistadas, ter exercido ou estar exercendo as atividades de operadora de caixa há, no mínimo, um ano ou mais, de forma que a pesquisa contou com participantes que estavam exercendo o cargo e trabalhadoras que compareceram ao sindicato para realizar a homologação da rescisão do seu contrato de trabalho, ou seja, ex-ocupantes do cargo de operadora de caixa.

Ana Carolina Secco ressalta que a escolha por entrevistadas somente do sexo feminino não foi intencional. “Eu busquei o cargo mais emblemático do supermercado por ser, justamente, o que tem mais contato com os clientes, e todas as operadoras eram mulheres. Esse é um cargo que, via de regra, se atribui ao sexo feminino em razão da construção social sobre o que é ser mulher, de forma que todas as características sociais atribuídas à mulher são transferidas para as relações de trabalho. Esta discussão está na dissertação, na ideia das profissões de ‘colarinho rosa’, ou seja, nas ocupações profissionais atribuídas ao sexo feminino, configurando o que se conhece como divisão sexual do trabalho”, afirma.

Unanimidade: expediente prolongado e dores na coluna

As entrevistas possibilitaram que Ana Carolina Secco compreendesse questões relacionadas às condições de trabalho e às vivências das operadoras de caixa, o que permitiu à pesquisadora analisar a repercussão dessas questões sobre a saúde das trabalhadoras. Um problema apontado pela pesquisa, com relação às condições de trabalho, foi o mau funcionamento das esteiras do caixa.

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“Quanto à questão física, a operadora se vê obrigada a esticar os braços, puxar ou levantar produtos pesados, ocasionando mais desgaste físico. Às vezes, o cliente ajuda colocando os produtos mais próximos da operadora, mas, na maioria das vezes, o mau funcionamento das esteiras torna o atendimento mais difícil, gerando reclamações e hostilidade por parte dos clientes. Durante as entrevistas, foi visível o incômodo das operadoras ao relatar esta situação. A cadeira inadequada foi outro ponto de reclamação quanto à estrutura física de trabalho. Todas mencionaram esse fato. Em função disso, as queixas de dores e desconforto na coluna foram unânimes entre as entrevistadas”, explicou a pesquisadora.

No que diz respeito às dificuldades vivenciadas no desempenho do cargo, a pesquisadora identificou um ponto comum mencionado pelas trabalhadoras: a jornada de trabalho e o desempenho de horas extras. Segundo Ana Carolina Secco, as operadoras têm consciência da necessidade do cumprimento de horas extras em dias de maior movimento, no entanto a insatisfação das trabalhadoras está relacionada ao fato de o prolongamento da jornada de trabalho ter se tornado rotineiro.

A insatisfação das trabalhadoras não se concentra somente no constante atraso do horário de saída, mas também no desrespeito aos intervalos durante a jornada de trabalho, o que representa prejuízo para a alimentação e pode acarretar, por exemplo, problemas gástricos.

Autocontrole diante de ofensas gera desgaste emocional

Por estarem no atendimento, as operadoras de caixa são o ponto de ligação entre o cliente e a empresa. Elas são as primeiras a receberem as queixas dos clientes, muitas vezes expressas de maneira ríspida e desrespeitosa. “Durante as entrevistas, elas disseram que são frequentemente atacadas pelos clientes com termos ofensivos, e isso gera uma grande demanda emocional. Todas apontaram esse problema como uma fonte de sofrimento no trabalho. Sobre a relação com as chefias, várias operadoras afirmaram que há pouco espaço para diálogo. As operadoras afirmam que não se sentem compreendidas em suas necessidades e, muitas vezes, se percebem sem apoio”, declarou Ana Carolina Secco.

A pesquisa também identificou quais são as atitudes adotadas para suportar a rotina de trabalho, e entre elas está a crença religiosa. Segundo Ana Carolina Secco, tal atitude é tomada com o intuito de se manter tolerante mediante o cliente e a empresa, para que elas possam continuar trabalhando. Outra atitude tomada pelas trabalhadoras era a de refletir sobre a necessidade do emprego, pois tal emprego representa grande parte da renda das famílias das entrevistadas.

O riso também foi tido como uma forma de enfrentamento. “Durante as entrevistas, no momento em que elas falavam sobre as dificuldades, elas riam. O título da dissertação foi retirado de uma entrevista: ‘eu acho graça para não chorar’. Tal frase foi muito simbólica, porque o riso foi uma forma que essa pessoa encontrou para enfrentar os problemas vivenciados”, avalia a psicóloga.

De acordo com Ana Carolina Secco, para garantir qualidade na rotina de trabalho, tanto para as operadoras de caixa quanto para os trabalhadores em geral, “é necessário que a empresa entenda que a escuta dos trabalhadores no ambiente de trabalho é importante. Isso é fundamental para que a pessoa possa manter uma relação saudável com o seu trabalho. Sendo assim, é necessário incorporar essa compreensão na cultura organizacional da empresa por meio de ações estudadas e desenvolvidas pela empresa”, concluiu.

 

Texto: Nicole França

Foto: Pixabay

Fonte: UFPA

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