Novo tratamento para diabetes torna mais eficaz o controle da doença

Fruto de uma pesquisa realizada pelo grupo do professor Luís Mauricio Trambaioli, do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas da UFRJ, uma novidade brasileira no controle da glicemia promete ser uma alternativa terapêutica que fará diferença na vida dos pacientes. Trata-se de um novo fármaco que está sendo desenvolvido a partir da modificação da molécula da amilina humana — um hormônio natural cossecretado com a insulina, atuando no controle da diabetes e obesidade, crescentes problemas de saúde pública.

Para se ter ideia, em 2015, a Federação Internacional de Diabetes (International Diabetes Federation) estimou que 8,8% da população mundial com 20 a 79 anos de idade (415 milhões de pessoas) vivia com diabetes. Cerca de 75% dos casos são provenientes de países em desenvolvimento, onde a incidência da doença vem aumentando nas últimas décadas. Se essa tendência persistir, o número de pessoas diabéticas projetado para 2040 é de mais de 642 milhões. Tal crescimento está associado a fatores como a rápida urbanização, sedentarismo, excesso de peso e envelhecimento populacional. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a glicemia elevada seja a terceira maior causa de mortalidade prematura, superada apenas por pressão arterial aumentada e uso de tabaco. Daí a importância da nova tecnologia.

Por trás da iniciativa, está a Biozeus, empresa brasileira com atuação pioneira no desenvolvimento de novos fármacos no Brasil, ao combinar expertise científica e de negócios. “Estamos desenvolvendo um medicamento brasileiro inédito para atender pacientes diabéticos de todo o mundo”, comemora Luis Eduardo Caroli, CEO da Biozeus, adiantando que recentemente foram concluídos os ensaios que comprovaram a eficácia da nova droga em animais diabéticos, mostrando a obtenção da normalização dos níveis de glicose no sangue quando a medicação foi aplicada em conjunto com baixas doses de insulina. O objetivo final da medicação é repor amilina e a insulina através de uma administração diária única, permitindo a restauração da fisiologia de forma prática, fácil e inédita.

O estudo, iniciado na Faculdade de Farmácia da UFRJ, mostrou-se inovador ao propor a modificação da amilina humana, permitindo, de forma inédita, sua aplicação terapêutica. O paciente diabético deixa de produzir tanto a amilina quanto a insulina, dois hormônios fundamentais no controle da glicemia e do peso. As formas de tratamento atuais permitem a reposição da insulina, mas a amilina humana ainda não é disponível aos pacientes. Dessa maneira, a reposição de amilina ao paciente diabético é fundamental para a restauração da fisiologia perdida, desejo de 100% dos médicos no tratamento de seus pacientes.

Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, dados obtidos em 2015 apontam que 75% dos brasileiros portadores de diabetes não apresentam controle glicêmico adequado com o tratamento usual. Mesmo seguindo dieta rigorosa e praticando exercícios físicos adequados, esses pacientes não se comportam fisiologicamente como indivíduos saudáveis. Neles, a deficiência está na produção não apenas da insulina, mas também da amilina. Esta última é responsável pela redução da velocidade do esvaziamento gástrico após as refeições e pela sensação de saciedade, pela redução da quantidade de glicose que o fígado joga na corrente sanguínea e por aumentar a queima calórica e o gasto energético. Juntas, essas ações equivalem a um controle maior da glicose e do peso. Em condições fisiológicas normais, a insulina e a amilina são produzidas por células do pâncreas e armazenadas nos mesmos compartimentos celulares, atuando sinergicamente no controle da glicemia.

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De acordo com Caroli, a indústria farmacêutica até hoje não tinha conseguido obter um medicamento viável à base de amilina humana justamente por ela ser insolúvel em água e por formar corpos agregados, considerados tóxicos inclusive para o pâncreas. “Esse estudo pioneiro é uma enorme conquista para a medicina mundial e um benefício aos milhões de diabéticos. O novo fármaco em desenvolvimento tem o potencial de levar uma inovação brasileira aos pacientes de todo o mundo”, destaca.

Uma cadeia nacional de desenvolvimento

A notícia da nova amilina não se destaca apenas pelo caráter de inovação do fármaco em si, mas também pelo modelo usado para tornar possível seu desenvolvimento, que seguiu uma tendência do mercado farmacêutico internacional muito conveniente no atual contexto brasileiro: o de compartilhamento de riscos. Ainda colocado em prática por poucos no país, esse modelo consiste na participação conjunta de diferentes agentes (players) do setor farmacêutico, onde cada um contribui com sua expertise, compartilha riscos e, oportunamente, divide resultados.

“No caso da amilina, a relação da Biozeus com a UFRJ é um exemplo de sucesso, pois previu o compartilhamento dos riscos do negócio e a aposta conjunta num resultado visivelmente promissor. É uma das ferramentas que encontramos para enfrentar a escassez de recurso público, afastando qualquer prejuízo para o desenvolvimento da alta tecnologia brasileira”, explica Caroli.

Com investimento do Fin Health, fundo brasileiro de venture capital voltado exclusivamente para o segmento de Ciências da Vida, a Biozeus tem a expertise científica e de negócios para buscar, selecionar, investir e conduzir as diversas etapas de desenvolvimento e comercialização de fármacos, desde os estágios iniciais até a etapa em que o projeto é licenciado para a indústria farmacêutica, que assume a fase final do desenvolvimento e comercialização global.

Atualmente, o mercado de vendas mundial de medicamentos para diabetes é aproximadamente de US$ 58 bilhões, e a expectativa é que a nova tecnologia resulte em um produto que alcance US$ 2 bilhões em vendas por ano.

 

Texto: Agência UFRJ de Inovação

Fonte e Foto: UFRJ

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