“Peixe bom de garfo” come de tudo e mantém equilíbrio ecológico em ilha oceânica brasileira

Pesquisadores em expedições marinhas identificaram o papel funcional do cângulo-preto (Melichthys niger), um peixinho comilão que vive em imensos cardumes no mais remoto arquipélago da costa brasileira, as ilhas de São Pedro e São Paulo, localizadas a mais de mil quilômetros (km) do continente. A espécie foi apelidada pelos cientistas como “peixe bom de garfo” por ele ter uma dieta variada e consumir alimentos tanto do reino vegetal como animal. Segundo o biólogo Juan Pablo Quimbayo, coautor da pesquisa e vinculado ao Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, o “cângulo-preto é uma espécie-chave na cadeia alimentar do arquipélago porque contribui para o equilíbrio ecológico aquático”.

Quimbayo explica que algumas espécies de peixes recifais têm uma dieta bastante especializada e consomem apenas um tipo de alimento, enquanto outras, como o cângulo-preto, possuem uma dieta mais diversificada e comem o que encontrarem pela frente. No cardápio dele, constam pelo menos 12 tipos de itens diferentes, entre eles detritos orgânicos, pequenos invertebrados, escamas, ovas de peixe, moluscos, plânctons e as algas.

 

Juan Pablo Quimbayo, biólogo e coautor da pesquisa do cângulo-preto – Foto: Arquivo pessoal do pesquisador

Segundo o artigo The omnivorous triggerfish Melichthys niger (Bloch, 1786) is a functional herbivore on an isolated Atlantic oceanic island, que foi publicado em julho de 2019 no Journal of Fish Biology, a distância do continente, o tamanho e a idade do arquipélago afetam as taxas de colonização e de extinção de animais nas ilhas oceânicas. Lá, existem poucos habitats naturais em comparação àqueles encontrados no continente, o que influencia a fauna local e o equilíbrio da cadeia alimentar. “Espécies com dietas como a do cângulo-preto estão entre os melhores candidatos para o preenchimento de nichos vazios na região”, diz Quimbayo.

No arquipélago, a presença de peixes herbívoros (peixes-cirurgiões e peixes-papagaios) é extremamente baixa;  é devido a este fato que o cângulo-preto se torna uma “espécie-chave na região porque conecta produtores primários –  as algas –  aos consumidores secundários – as moreias, as barracudas e os xaréus”, diz.

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O biólogo afirma também que estudos sobre ecologia alimentar de espécies onívoras (animais com dietas diversificadas) são necessários para entender melhor as funções ecológicas dos organismos aquáticos em sistema de recifes, especialmente em áreas pobres de diversidades como é o caso do arquipélago São Pedro e São Paulo. Pesquisadores possuem interesse nessa região porque o arquipélago é o mais remoto da costa brasileira, tem a menor riqueza de espécies de peixes recifais do Atlântico Sul e apresenta uma alta taxa de espécies endêmicas, que só existem neste local em todo o mundo.

Ilhas de São Pedro e São Paulo

Arquipélago de São Pedro e São Paulo, Pernambuco, Brasil – Foto: Canindé Soares via Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

O arquipélago de São Pedro e São Paulo é pouco conhecido dos brasileiros. As ilhas se situam na parte central do oceano Atlântico, a 627 quilômetros do arquipélago de Fernando de Noronha e a cerca de 1010 km da cidade de Natal, no Estado do Rio Grande do Norte (RN). A primeira Estação Científica foi construída no local em junho de 1998. Desde então, a região se mantém habitada.

A pesquisa com o cângulo-preto teve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e orientação do professor Carlos Eduardo Leite Ferreira, da Universidade Federal Fluminense (UFF). O biólogo Juan Pablo Quimbayo segue com seus trabalhos acadêmicos no Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, onde está atualmente alocado.

Mais informações: (12) 3862-8413 ou e-mail quimbayo_jp@usp.br, com Juan Pablo Quimbayo

 

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Foto: Arquivo pessoal do pesquisador

Fonte: Jornal da USP

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