Pesquisa avalia eficácia de procedimentos de ensino de Inglês

Avaliar a eficácia de diferentes procedimentos de ensino – tato e ouvinte – na aprendizagem de um pequeno vocabulário em língua estrangeira em crianças da rede pública de ensino. Este é o objetivo da pesquisa de mestrado realizada por Mayara da Silva Ferreira no Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi) da UFSCar. O estudo recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Experimentadora realiza procedimento de ensino de ouvinte com criança (Crédito: Divulgação)

No ensino de tato, a pessoa é ensinada a, por exemplo, nomear estímulos – que podem ser, dentre outras coisas, figuras de objetos ou animais. O estímulo visual é apresentado com uma pergunta relacionada, e a criança é solicitada a responder, dizendo o nome correspondente. Para evitar erros, nas primeiras tentativas, é apresentada uma dica vocal (a resposta correta) imediatamente após a apresentação do estímulo visual. Ao longo das tentativas, conforme a criança vai atingindo critérios de aprendizagem, a dica vai sendo atrasada, até que o aprendiz responda corretamente de forma independente. Os acertos são sempre seguidos por elogios e, quando ocorrem erros, a dica é reapresentada.

Já no procedimento de ensino de ouvinte, são apresentados três estímulos visuais, com uma instrução (como “aponte azul”), e, neste caso, a pessoa deve apontar para o estímulo que tenha a característica solicitada (no exemplo, apontar a cor azul). Aqui também há a dica que vai sendo atrasada e as consequências para certos e erros são as mesmas usadas no ensino de tato.

Na pesquisa, os dois procedimentos são empregados de forma alternada ao longo das sessões para apresentar um pequeno vocabulário na Língua Inglesa às crianças. As atividades envolvem estímulos de dois elementos: cor e objeto. Para tanto, são usados cartões impressos com objetos preenchidos por cores específicas.

Inicialmente, no caso da aplicação do ensino de tato, a pesquisadora apresenta um estímulo visual – um cartão com uma dada cor – e uma pergunta relacionada àquele estímulo (“que cor é esta em Inglês?”). No procedimento do ensino de ouvinte, ela apresenta, simultaneamente, três estímulos visuais – três cartões, cada um com uma cor – e dá uma instrução (por exemplo, “aponte blue” – azul).

“Na primeira fase, a criança aprende cores com um dos procedimentos, ensino de tato ou de ouvinte. Por exemplo, white (branco), green (verde) e blue (azul). Em seguida, ela aprenderá as cores já ensinadas na etapa anterior e, também, objetos. Exemplos possíveis agora são white mug (caneca branca), green book (livro verde) e blue fork (garfo azul). Nesta fase, cada objeto possui uma das três cores ensinadas na primeira fase, por isso a importância de ter esses dois elementos nos cartões utilizados no experimento”, explica.

Em sua pesquisa, Ferreira avalia qual dos dois procedimentos empregados produz tanto uma aprendizagem mais rápida quanto uma maior generatividade. “Ensino três pares de estímulos (três cores e três objetos) para cada um dos tipos de procedimento de ensino. Ao final, testo 30 novas combinações entre cor e objeto, que não foram ensinadas diretamente nas fases de ensino”, explica. A generatividade, assim, consiste na aprendizagem de novas relações verbais em língua estrangeira que não foram diretamente ensinadas ao longo do estudo.

A coleta de dados é realizada no Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar, com crianças participantes de um programa de ensino de leitura e escrita, de escolas públicas, com idade entre oito e nove anos. Intitulada “Avaliando a eficácia dos ensinos de tato e ouvinte com estímulos de dois elementos na aquisição de língua estrangeira”, a pesquisa tem orientação de Mariéle Cortez, docente do Departamento de Psicologia (DPsi) da Instituição e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE), com sede também na UFSCar.

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O trabalho está em andamento e os resultados encontrados até o momento são promissores. Os procedimentos adotados estão sendo eficientes no ensino de estímulos de dois elementos (cor e objeto) em Inglês. No entanto, o ensino de tato tem se mostrado mais eficaz. Neste procedimento, as crianças apresentam altos índices de acerto nos testes desde as primeiras fases de ensino, com um número menor de exposições às tentativas de ensino quando comparado ao procedimento de ouvinte.

Ferreira também detectou que, após o ensino de apenas três pares de cor e objeto (independentemente do procedimento adotado), as crianças foram capazes de recombinar cores e objetos não ensinados diretamente juntos. Outro dado de destaque, na avaliação da pesquisadora, envolve o fato do procedimento ser aplicado com estudantes que não passaram por aprendizagem formal ou informal de Inglês, além de apresentarem dificuldades de leitura e escrita em Português. “Apesar dessas condições, ao final do estudo todas as crianças expostas aos nossos procedimentos de ensino foram capazes de aprender, tendo em vista que saíram falando palavras em Inglês e aplicando o que foi aprendido no dia a dia. Em diversos momentos, ao me encontrar, elas diziam frases como ‘hoje estou vestindo uma camisa green‘ ou ‘sua blusa é blue, tia'”, relata a mestranda.

Ao final da análise, a pesquisa buscará colaborar com a construção de programas de ensino de língua estrangeira mais eficazes. “Isto significa proporcionar uma aprendizagem sem erros, rápida e ‘econômica’ no sentido de garantir o estudo de um grande número de relações verbais e recombinações entre estímulos a partir do ensino direto de poucos pares de estímulos (como cor e objeto). Além disso, a dissertação visa contribuir para o avanço científico dos estudos em comportamento verbal dentro da Análise do Comportamento, colaborando assim com o desenvolvimento da ciência psicológica”, ressalta.

O estudo conquistou o segundo lugar no Prêmio Luiz Marcellino de Oliveira, destinado ao melhor trabalho na categoria Mestrado apresentado na 49ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), realizada de 22 a 25 de outubro de 2019 na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, em conjunto com o 1º Congresso de Psicologia Ambiental e Relações Pessoa-Ambiente, da Associação Brasileira de Psicologia Ambiental e Relações Pessoa-Ambiente (Abrapa). Mais informações sobre o evento estão disponíveis em seu site.

Sobre o INCT-ECCE
O tema de investigação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE) é a aprendizagem de relações, especialmente de relações simbólicas e conceituais. O ECCE também vem explorando as implicações das descobertas em seu campo de estudos para a formulação, implementação e avaliação de programas de ensino de habilidades e conceitos acadêmicos, voltando-se, particularmente, para populações desafiadoras, com necessidades educativas especiais. O Instituto é financiado por convênio entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, por intermédio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Há, também, financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Mais informações em https://inctecce.com.br.

 

Texto: Adriana Arruda

Imagem: Gerd Altmann por Pixabay

Fonte: UFSCar

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