Pesquisa compara autodeclaração de raça/cor a dados genéticos

Um estudo que contou com a participação de pesquisadores da USP mostra que a probabilidade de alguém se declarar como preto ou pardo aumenta de acordo com a proporção de ancestralidade genética africana, mas varia segundo o local onde os entrevistados moram e o nível de instrução deles. Os dados estão no artigo Context-dependence of race self-classification: Results from a highly mixed and unequal middle-income country, publicado em maio na revista científica PlosOne. No trabalho, os cientistas fazem uma comparação entre o componente de ancestralidade genética através de três marcadores (europeu, ameríndio e africano) e a autodeclaração de raça/cor das pessoas. A grande novidade do trabalho foi relacionar variáveis socioeconômicas, demográficas e genéticas em um estudo brasileiro sobre raça/cor.

Os pesquisadores usaram dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa Brasil), uma investigação de caráter internacional que tem por objetivo pesquisar a incidência e os fatores de risco para doenças crônicas, em especial as cardiovasculares e o diabetes. São acompanhados 15 mil funcionários de seis instituições públicas de ensino superior do País. Em cada centro, os participantesda pesquisa fazem exames e entrevistas periódicos nas quais são avaliados aspectos como condição de vida, relação com o trabalho, gênero, especificidades da dieta da população brasileira e diferenças sociais.

O Elsa Brasil é um grande estudo que envolve várias regiões e instituições de estudo do País – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A medida da proporção de ancestralidade foi feita analisando-se o material genético dos participantes através da coleta de sangue. Os dados deste estudo foram colhidos durante dois anos, de 2008 a 2010, por pesquisadores da USP, Fiocruz e Universidades Federais da Bahia, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e um dos pesquisadores envolvidos neste estudo, comenta que a localidade é um fator bem expressivo e deve ser levado em consideração. Em Salvador, por exemplo, 50% da população tem ancestralidade europeia. Já em Porto Alegre, esse número chega a 80%. Existe uma variação, segundo cada região do Brasil, que apresenta proporções diferentes de brancos, pretos, pardos, indígenas e amarelos.

Dóra Chor:  composição da área onde a pessoa mora também se relaciona com a probabilidade dela se declarar como negra ou parda – Foto: Arquivo pessoal

A professora Dóra Chor, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Fundação Oswaldo Cruz), que comandou o estudo, comenta que a grande quantidade de dados coletados pelo Elsa possibilitou o desenvolvimento de artigos como esse, que não tratam somente da ocorrência e fatores de risco de doenças do coração, diabetes e obesidade, por exemplo.

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A principal pergunta que moveu o grupo de pesquisadores foi a seguinte: quais fatores influenciam a autodeclaração de raça/cor? “Nosso maior interesse era olhar o quanto a ancestralidade e a composição racial do lugar em que a pessoa mora influenciavam a declaração de raça/cor”, explica Dóra.

A pesquisadora comenta que a ancestralidade africana influencia a autodeclaração de raça/cor, mas com intensidades diferentes, de acordo com a cidade. Além disso, a composição da área onde a pessoa mora também se relaciona com a probabilidade dela se declarar como negra ou parda.

Lotufo explica que esse não foi o único fator analisado. O nível educacional também influencia a autodeclaração de raça/cor dos indivíduos. “Quem tinha nível educacional mais alto diminuía a chance de se declarar como preto, embora tivesse uma boa parte da ancestralidade africana”, exemplifica.

Paulo Lotufo: é importante como a pessoa se vê e é vista no seu meio. “Ninguém enxerga o DNA de ninguém” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A pesquisa é resultado da combinação entre esses fatores, uma vez que apenas a ancestralidade genética não consegue explicar determinados fenômenos. Contextos situacionais são relevantes para cenários como o de políticas públicas, sociologia e medicina. “É preciso levar em conta vários contextos, tanto individuais como coletivos, para se ter uma explicação mais completa daquilo que influencia a forma como a pessoa se vê, em termos de raça. No geral, as pessoas acham que raça é uma coisa geneticamente determinada”, comenta Dóra.

De acordo com o professor, não é possível considerar igualmente a forma como a pessoa se vê e o que ela tem, de fato, no seu genoma. Existe uma concordância, entretanto, há uma diferença que apresenta significado distinto. “É muito importante como a pessoa se vê e é vista no seu meio. Quer dizer, ninguém enxerga o DNA de ninguém”, finaliza.

Mais informações: e-mails palotufo@usp.brdorachor@gmail.com

 

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Foto: Ibex73/Wikipedia

Fonte: Jornal da USP

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