Pesquisa da Faculdade de Letras da UFG observou a interação comunicativa na roda de capoeira

Dança, jogo e luta. Há quem diga que capoeira é tudo isso ao mesmo tempo. Independente da definição uma coisa é certa: capoeira é corpo em movimento. Segundo a pesquisadora da Pós-graduação em Linguística da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, Zilda Pinheiro, no Brasil existem duas capoeiras a Capoeira Angola, mais antiga, desenvolvida desde que os negros chegaram no Brasil e sistematizada na Bahia no século XX pelo mestre Pastinha. Dentro da Capoeira de Angola nasceu a Capoeira Regional com o mestre Bimba, que queria realçar a luta na Capoeira Regional: “Na prática, a Capoeira Angola é mais dançada e com movimentos mais lentos e próximos do chão, um jogo mais encaixado. Já na Capoeira Regional é valorizado o aspecto marcial, tanto que tem as cordas, os mortais, os golpes mais ofensivos, mas ambas tem como base a ginga”.

capoeira

Zilda pesquisou sobre a capoeira no Doutorado da Faculdade de Letras da UFG. Ela observou a interação comunicativa na roda de Capoeira: “Eu fiz uma pesquisa bibliográfica no sentido de valorizar a produção dos mestres e capoeiristas. A capoeira nasceu assim como o samba e as religiões Umbanda e do Candomblé, na tradição oral, que se mantém, mas foi complementada com a produção escrita. Os capoeiristas estão nas universidades realizando pesquisa. Os mestres escrevem livros. Achei interessante mobilizar essas obras, pois há uma descrição fidedigna e detalhada da roda de capoeira, dos campos, dos movimentos, das metodologias de ensino”.

A pesquisa foi baseada em duas teorias principais. Uma delas é a Ecolinguística. Ela estuda a linguagem humana, verbal, numa perspectiva ecológica, ou seja, ela une a ecologia que estuda as interações dos seres vivos no meio ambiente com a linguística, que estuda a língua. A ecolinguística estuda a relação da língua com o meio ambiente e como nossa comunicação está relacionada ao espaço.

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Zilda Pinheiro

Na roda de capoeira, segundo ela, percebemos que há uma interação do corpo com o espaço em vários níveis. No primeiro nível linguístico verbal é pelos cantos: a capoeira tem música. O segundo nível é o extra linguístico: a entonação, ritmo, dialeto. O aspecto pró-cênico, que estuda a distância dos corpos na comunicação. Por exemplo, como a roda se estrutura, o jogo dos capoeiristas no centro, a formação da bateria: tudo interfere na interação. E cinésico, que tem a ver com a linguagem corporal, todos os movimentos comunicam. A ecolinguística permite olhar esses aspectos de maneira integradora. “Cheguei a conclusão que nosso corpo é um elo entre nossa língua e nossa cultura. Para chegar a essa conclusão, precisei analisar o corpo de uma perspectiva ecológica, entendendo que somos também um ecossistema, nos relacionamos internamente e externamente e esse ecossistema se relaciona com as nossas interações linguísticas, culturais. Pelo nosso corpo percebemos nossa cultura. E pela nossa língua a gente percebe o que entende por corpo e por cultura também.

Outra teoria utilizada foi a antropologia do imaginário. A capoeira tem muitas metáforas e ela analisou como isso se processa na mente humana e o quanto o ser humano significa isso na linguagem. Isso também mostra mitologias. Na roda de capoeira se vive o mito do eterno retorno: “Ali sempre retornamos à ancestralidade, à integração entre os negros, de comunhão entre dança, música e religiosidade, jogo e luta. O que é muito bonito, inclusive. A capoeira é um patrimônio imaterial, tombado pela Unesco. É uma manifestação que diz muito sobre o Brasil, sobre a cultura negra em nossa formação e um instrumento de combate ao racismo. A capoeira combate o racismo mostrando a arte e a memória.” O corpo em movimento para a resistência.

 

Vídeo: TV UFG

Fotos: Reprodução / Jornal UFG e Cassiohabib / Shutterstock.com

Fonte: Jornal UFG

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