Pesquisa relaciona variação climática com casos de dengue em Belém

Transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, a dengue possui altos índices na cidade de Belém. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, até 29 de dezembro de 2018, haviam sido confirmados 95 casos de dengue, 3.019 de chikungunya e cinco de zika vírus na capital paraense. Pensando nesse contexto, Marcela Gonçalves Pereira desenvolveu a dissertação O clima tropical e a dengue: Uma análise como subsídio para gestão ambiental municipal. A pesquisa foi apresentada no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia (PPGEDAM/NUMA) e orientada pelo professor Sérgio Cardoso Moraes.

Marcela Gonçalves observou as mudanças meteorológicas que vêm ocorrendo na cidade de Belém e como elas podem influenciar as ocorrências de dengue. Para isso, foi analisado o período de 2007 a 2015. Com os dados, a pesquisadora mapeou a correlação de distribuição temporal de dengue com os parâmetros meteorológicos de bairros que pertencem à bacia hidrográfica do Una. No total, foram estudados sete bairros, sendo eles: Mangueirão, Marambaia, Pedreira, Sacramenta, Souza e parte dos bairros Bengui e Marco.

“O objetivo da pesquisa foi conseguir identificar qual a influência climática nas taxas de dengue em uma bacia já saneada, no caso a bacia hidrográfica do Una. Tendo em vista que os bairros da bacia do Una já sofreram interferências da macrodrenagem, busquei entender qual é o reflexo dessas ações na saúde da população. Procurei compreender de que forma isso pode orientar o Estado na criação de políticas públicas mais econômicas e pontuais para a erradicação da doença”, explicou Marcela Gonçalves.

A pesquisadora obteve os dados meteorológicos de pluviômetros convencionais do Instituto de Meteorologia (INMET). Além disso, entrevistou funcionários da Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) e da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma).

Problemas urbanos criam ambiente para o mosquito

Com a chegada do verão, as chuvas se tornam mais frequentes e ocorre o aumento do calor. Tal cenário é propício para a proliferação do mosquito Aedes aegypti. Tendo em vista a influência das variações climáticas nas incidências da dengue, a dissertação levantou dados meteorológicos, como a umidade relativa do ar, a temperatura compensada do ar e a precipitação acumulada.

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A pesquisa aponta que a precipitação pluviométrica intensa (fenômeno relacionado à queda de água do céu), com os problemas no ambiente urbano, como um sistema de escoamento hídrico inadequado (que acarreta alagamentos e inundações), aumenta a possibilidade da existência de doenças que têm a sua transmissão relacionada à água.

“A dengue já é classificada mundialmente como uma doença tropical, de países com clima mais quente e úmido. Em países da Europa, por exemplo, ela já foi erradicada. Isso ocorre também por conta da estrutura sanitária que aqueles países possuem, o que não se observa no Pará e no Brasil. Nós ainda pecamos pela falta de esgoto e de acondicionamento adequado para o lixo”, afirmou a pesquisadora.

Foram feitas duas análises: uma focada na temporalidade anual e outra na temporalidade sazonal (média mensal). “Na temporalidade anual, percebeu-se que, em Belém, a umidade do ar não teve tanta relação com os índices de dengue, pois ela pouco varia, permanecendo na faixa de 80% a 90%. No entanto, quando se analisa a questão sazonal, que apresenta uma média por mês, identificou-se que ela tem influência direta”, declarou Marcela Gonçalves. A pesquisa também verificou que a temperatura em Belém varia pouco. De acordo com a pesquisadora, a variação chega a meio grau, de forma que pouco influencia as taxas da doença estudada, diferentemente da precipitação, que possui uma ligação forte e direta.

A pesquisadora ressalta, ainda, que, apesar de as variações climáticas influenciarem as ocorrências de dengue, as ações humanas também possuem uma influência na proliferação do mosquito. Para ela, fatores relacionados ao planejamento das ações municipais contribuem para a reincidência da dengue nas áreas analisadas.

“Observou-se, com base no arcabouço teórico, que os surtos não deveriam acontecer nessas proporções nas regiões pertencentes à bacia já saneada, o que torna muito mais necessárias ações qualitativas e sustentáveis para Belém”, informou Marcela Gonçalves. Para a pesquisadora, uma gestão integrada entre órgãos do município seria uma ação que contribuiria para a redução de ocorrências de dengue em Belém.

 

Texto: Nicole França

Foto: Pixabay

Fonte: UFPA

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