Tempo de proteção de repelentes é inferior ao informado no rótulo, mostra pesquisa

O repelente é uma das medidas preventivas propostas pelo Ministério da Saúde no combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus que causa doenças como a Dengue, a Chikungunya e a Zika. Baseada nos produtos disponíveis no mercado, a pesquisadora Adriana dos Santos Estevam resolveu avaliar o tempo de eficácia a fim de descobrir se esses números condiziam com as informações dos rótulos.

A dissertação de mestrado foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Biologia Parasitária (PROBP) da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e concluiu que os repelentes apresentaram uma redução das picadas com tempo de proteção total inferior ao indicado nos rótulos e descrito nas embalagens.

A motivação para o tema surgiu a partir da recente epidemia de Zika e Microcefalia no Brasil, enquadrando o estudo nos objetivos do grupo de pesquisa Ecologia e Controle de Parasitos e Vetores (Ecovet), que tem como foco o controle de causadores de doenças.

 

“Descobrimos que é necessário um maior número de reaplicações dos produtos para atingir o período de proteção desejado”, conta a pesquisadora Adriana dos Santos Estevam
“Descobrimos que é necessário um maior número de reaplicações dos produtos para atingir o período de proteção desejado”, conta a pesquisadora Adriana dos Santos Estevam

 

A orientadora, professora Roseli La Corte, afirma a importância desse produto, principalmente, em relação às gestantes, uma vez que a picada do mosquito pode transmitir a Zika e fazer o feto desenvolver Microcefalia. “O que nós queríamos avaliar é: quanto tempo esse repelente protege completamente, ou seja, nenhum mosquito pica. Porque quando no rótulo diz ‘até dez horas’, não necessariamente significa dizer que a proteção é completa, muitas vezes é somente uma diminuição do número de picadas”, complementa.

 

Roseli La Corte, orientadora da pesquisa, tem experiência na área de entomologia médica com ênfase em controle e ecologia de vetores
Roseli La Corte, orientadora da pesquisa, tem experiência na área de entomologia médica com ênfase em controle e ecologia de vetores

 

Testando com voluntários

Adriana explica que os testes foram feitos com a fêmea da espécie, que precisa de sangue para concluir seu processo de amadurecimento dos ovos e é responsável pela picada que transmite o vírus.

“Ao lado do laboratório de morfologia, nós temos o insetário, onde estão armazenados os insetos livres de contaminação. Também foram utilizados três voluntários homens e três voluntárias mulheres, para garantir que tanto o sexo quanto qualquer outra característica não influenciassem no resultado”, conta a pesquisadora.

Foram testados repelentes de nove marcas diferentes (descritas na dissertação). Seis deles eram a base da substância DEET, dois eram a base de Icaridina e um a base de IR3535. Para cada produto, seis voluntários foram selecionados, e para cada um deles, uma gaiola com 50 fêmeas do mosquito foi separada.

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Utilizaram-se ambos os braços dos voluntários no procedimento. Foi aplicado o repelente em um dos membros e o outro serviu de controle para o experimento. Durante 30 segundos, o braço com repelente foi posto na gaiola e o processo repetido a cada 30 minutos, até que os mosquitos começassem a pousar sobre a pele.

Resultados

Nos produtos cujo princípio ativo era o DEET observou-se uma mediana máxima de 90 minutos, em produtos cujo rótulos indica uma proteção de até 5 horas. Os a base de IR3535 a mediana obtida foi de no máximo uma hora e indicação do fabricante de proteção até 4 horas. Já para os que contém Icaridina observou-se uma proteção de duas horas, cujo rótulo indica proteção de até 4 horas (veja tabela).

Os números obtidos na pesquisa confrontam as informações das embalagens dos produtos comercializados, ao mostrar que o tempo de proteção total é muito inferior ao dos rótulos. O estudo sugere uma nova recomendação a respeito do uso do repelente, sua concentração adequada e o número de reaplicações do produto no indivíduo, garantindo uma proteção para a população contra doenças que são transmitidas por insetos.

 

(Infográfico: Marcilio Costa)
(Infográfico: Marcilio Costa)

 

O mosquito

O mosquito Aedes aegypti, originário do Egito, tem se espalhado pelo mundo nas regiões subtropicais e tropicais do planeta, ocorrendo atualmente em países situados no Sudeste Asiático, Américas, África, Pacífico e Mediterrâneo. Menor do que maior parte dos mosquitos, é preto com listras brancas no tronco, na cabeça e nas pernas. Suas asas são translúcidas e o ruído que produz é praticamente inaudível ao ser humano.

Uma das características da transmissão do vírus é que ela é realizada através do mosquito fêmea, o qual precisa de sangue para amadurecer seus ovos. O macho, como de qualquer espécie, alimenta-se exclusivamente de frutas.

Em média, cada mosquito vive em torno de 30 dias e a fêmea chega a colocar entre 150 e 200 ovos. Os locais escolhidos são latas e garrafas vazias, pneus, calhas, caixas d’água descobertas, ou qualquer outro objeto que possa armazenar água parada. Acabar com os possíveis focos do mosquito é uma das indicações do Ministério da Saúde.

 

Texto: Brunna Martins e Marcilio Costa

Foto: Pixabay

Fonte: UFS

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